3.Dois irmãos


António Carlos Lepierre Tinoco

(1913—1966)

Muito complicada esta tarefa de escrever sobre o António Lepierre Tinoco, sabendo que é meu avô e não sabendo nada, quase nada, dele. São ideias contraditórias, pouco naturais. Não tenho por onde começar, não sei onde acabar. Vou antes listar, tentando manter uma ordem cronológica, facetas, dados, interrogações, episódios, efabulações...




Carlos António Lepierre Tinoco

(1915—1941)

Era o irmão caçula. Mais não sei. Se era o preferido da mãe ou do pai. Se se dava bem com o seu irmão. Se aprovava e alinhava as suas ideias com as do irmão. Apenas sei que morreu tragicamente cedo demais. Aos 26 anos de idade, acabado de se licenciar em Engenharia.

E que era um homem dado às letras, à poesia. Que nutria essa lado da vida com especial carinho. E que no ano seguinte à sua morte lhe reuniram postumamente os textos (ao que parece essa tarefa ficou a cargo de dois grandes amigos dos dois irmãos, António Pedro e Barradas de Oliveira), cronologicamente ordenados, num livro que a Livraria Bertrand deu à estampa, cujo título acabou por ser Correspondência Frustrada.


Correspondência Frustrada

Nesse livro temos direito a um retrato seu, feito em 1938 por António Duarte. Será este António Duarte o escultor das Caldas da Rainha, pertencente à 2.ª geração dos modernistas portugueses? Muito provavelmente. Uma coisa é certa, olho para esse retrato e tenho um vislumbre do seu irmão, nos olhos, sim, acho que nos olhos.

Carlos António Lepierre Tinoco

Outra coisa interessante da edição que possuo é que tem uma dedicatória na primeira página. Nela, ATL endereça a Belo Redondo (certamente o mesmo Belo Redondo que presidiu ao Sindicato de Profissionais da Imprensa de Lisboa) a sua admiração. É a coisa mais próxima, mais íntima, do meu avô que possuo. Uma assinatura.



Não saberia escolher um poema de Carlos Lepierre Tinoco para aqui transcrever; opto então por dois pensamentos que marcam a abertura do livro (é certo que podem não ser da sua autoria, podem ter sido ali colocados por terceiros, mas ainda assim me parecem pertinentes e condizentes com o resto da obra).


Não te apegues às verdades que não te venham duma angústia espiritual.
Elas podem ser a Verdade, mas não te servem com certeza
nem ao teu tamanho nem à tua forma.

Só irás descobrindo sentido à vida
quando ela fôr uma procura desvairada de ti próprio,
através de tudo o que se te oferecer.