6.Diário Popular

Uma década volvida, após o período fascista, após os comícios, após o Revolução, após a cisão, após o golpe, após a prisão, veio o período da calmia, da resignação, o período do Diário Popular. Principal contraste entre os dois períodos: enquanto no primeiro escrevia sempre que podia, com uma regularidade semanal; no segundo apenas no primeiro número e, daí em diante, anualmente nos números que celebravam os aniversários do jornal.

Aqui ficam as transcrições dos seus textos no Diário Popular. Como já é hábito, tudo o que estiver em vermelho é da minha autoria.




Diário Popular, n.º 1, 22 de Setembro de 1942

Capa do primeiro número do "Diário Popular".

RAZÕES DE PRESENÇA

[ilegível] Popular» que apare- [ilegível] público já tinha nascido [ilegível] espírito de meia dúzia [ilegível] que vinham sentindo a [ilegível] existência de um [ilegível] fosse de facto um [ilegível].
[ilegível] -amentalmente um jornal [ilegível] informação, o «Diário Popular» tem um objectivo essencial [ilegível] procurar avivar a cons- [ilegível] , dando aqui à pa- [ilegível] uma maior amplitude [ilegível] que lhe dá o seu sig- [ilegível] -fico ou seja o de que [ilegível] social por excelên- [ilegível].
[ilegível] não é preciso, feliz- [ilegível] a consciência na- [ilegível] tem de sentido [ilegível] -tórico; todos sentem [ilegível] grandeza do Império [ilegível] seu passado prestigioso e heróico, que a notável obra realizada pelo Estado valorizou extraordinariamente.
Porém, é evidentemente preciso lembrar que o problema nacional mais agudo é, no momento que passa, como em tantos outros países, o problema da possibilidade de o homem de hoje ser capaz de se transformar no homem de amanhã, ou [ilegível] problema do homem habitua- [ilegível] costumes duma civilização [ilegível] desaparece se capaz de se [ilegível] às novas características de [ilegível] civilização que nasce.
É fácil de compreender que nos países que sofrem mais duramente e mais directamente a guerra se dá por isso mesmo um abalho [sic] profundo de remodelação psicológica.
A ideia de comunidade, a ideia de que o homem não é um mero indivíduo isolado, a ideia de que o homem não pode continuar a ser o inimigo do homem e de que a nação não poder um mero agrupamento de indivíduos, mas sim uma pessoa colectiva e um somatório de [ilegível] desenvolve-se e prospera.
No nosso país, justamente por estarmos em paz, floresce demasiado o egoísmo e corremos o risco de dimi- [ilegível] o «tonus» vital da consciência nacional, por darmos a esta consciência um significado estritamente geográfico e histórico, em vez de lhe cultivarmos a sua essência altamente moral e social.
Não pode haver patriotismo verdadeiro sem sensibilidade viva, sem capacidade de vibração, sem capacidade de interesse pelos altos problemas humanos e espirituais, sem [ilegível] angústias e inquietações.
O «Diário Popular», sendo, como já [ilegível] formação, não virá tocar diariamente a tecla do patriotismo social, mas é essa a directriz dominante da sua acção como foi, para usarmos uma expressão médica, a dominante etiológica do seu aparecimento.
E como essa directriz não morre, e essa dominante etiológica não envelhece rapidamente – dada a profundidade da revolução que é a guerra – podemos dizer que o «Diário Popular» nasceu novo e que poderá conservar-se sempre novo.
Os que trabalham neste jornal não vêm todos do mesmo sector; se tal sucedesse não seria preciso um novo jornal porque a Imprensa portuguesa – a quem apresentamos as nossas saudações – não necessitaria para isso de mais um jornal, pois já há muitos.
A necessidade e a justificação da coragem que esta realização representa estão precisamente na impressão de que o magno problema da preparação do homem para um novo humanismo exige um esforço da natureza do que a criação deste jornal representa e que, esperamos, certamente o público compreenderá.
Este interesse pelo magno problema do homem novo não significa desinteresse pela actividade do Estado, que contará com o nosso merecido apoio às suas boas realizações e comentário sempre inspirado pelo desejo de servir.

ANTÓNIO LEPIERRE TINOCO




PEÇO A PALAVRA
O JORNALISMO E ESTE JORNAL

O jornalismo é, acima de tudo, uma altíssima missão espiritual; é também uma função social e política de incontestável utilidade; e é, para alguns, uma profissão – a sua profissão, em que se confunde, ou deve confundir-se, o esforço para viver na ordem material com o esforço que o homem cumpre para se realizar na ordem moral. No sentido apostólico reside a essência mais pura do jornalismo que o exercício da função disciplina: esclarecer nos domínios da inteligência; educar e ensinar a cumprir o dever; informar os homens dos actos dos outros homens; habilitar todos a julgar e a proceder; distrair com um espectáculo que é a vida vivida da reportagem do que aconteceu ou acontece; levar ao sonho que perpassa num pouco de fantasia; transmitir ideias e criar emoções, intelectuais e sensitivas. Projectar-se por estes meios projectando um ideal, um sentido, um estilo, uma moral, uma atitude – expectativa, sorriso, combate ou certeza – toda a gama que exalta, excita, acalma, distrai ou chama a atenção.
Orientar, dirigir, conduzir, é, afinal, toda uma possibilidade, toda uma responsabilidade, toda uma consciência, todo um destino. Que destino! A humildade que havemos de praticar e nos há-de inspirar, a nós, jornalistas, para servir e cumprir, estarmos à altura de nós próprios, penitenciarmo-nos dos erros e dos enganos, termos coragem para corrigir e continuar! E que função – moral, social, política! Séria responsabilidade perante as forças eternas da vida e para com os homens nossos irmãos, que devemos e queremos servir.
Esclarecer, ensinar, educar, informar, recrear – servir: sempre, através de tudo, das vicissitudes, das incompreensões, das injustiças, das canseiras extenuantes, do pecado e da virtude. Servir, pedindo absolvição para as faltas, no amor dum apostolado, duma função, duma profissão – duma vida inteira, com todas as suas derrotas e vitórias.

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O jornalismo é para alguns uma profissão, exercida numa actividade que é das mais graves. Ao jornal, trazem, é cerro, a sua mensagem aqueles que vivendo outra vida têm uma mensagem a comunicar. Mas é o jornalista profissional quem o faz. O jornal é o somatório e o resultado de mil esforços – e é, na sua expressão pública, obra de jornalistas. Manda, no entanto, a justiça, que se preste homenagem a todo o colaborador, àqueles que para o jornal trabalham e são, como os outros, partes de um todo.
A disciplina e a dureza do trabalho, a máquina, a empresa, deram ao profissional da Imprensa toda a servidão, todo o heroísmo, toda a consciência do seu caminho. É esta a sua dor, esta a sua glória, este o seu orgulho. Servidão, heroísmo, consciência, que nas noites de insónia criadora, nas madrugadas de exaltação, nos meios-dias plenos de triunfo, são a certeza do jornalista que do jornal vive e para o jornal vive, certeza redentora de tudo o mais…

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Este jornal é de jornalistas e de homens que entenderam os jornalistas; por isso tem força – a força dum grande amor e duma total confiança. Nada vencerá este entendimento.
Quisemos, todos os artífices deste empreendimento, fazer um jornal – na sua exacta acepção, possibilidade, esperança, realidade. Fomos e somos combatidos – ainda bem. Entenderam-nos ou não: entenderam-nos aqueles que interessam; atacam-nos, injuriam-nos, caluniam-nos os outros. Mal não ficaremos ao fim. Travámos luta em todos os aspectos: do financeiro ao meio ambiente, do aspecto técnico ao profissional, das questões puramente administrativas às intrigas e à sabotagem.
Surgimos enfim hoje a abraçar a opinião pública num jornal de grande informação que eduque e ensine: um sentido eminentemente nacional e social, para além dos exclusivismos, das devoções particulares, das pequenas convicções e pontos de vista partidários daqueles países que não o nosso, acima de todos; um jornal que coordene, também, para servirem, todos os reais valores intrínsecos – dos homens mais velhos aos mais novos, dos mais consagrados aos desconhecidos.
O «Diário Popular» será essencialmente português e popular. Vencemos uma grande batalha com o aparecimento do jornal. Hoje começa outra batalha. Vencê-la-emos.

ANTÓNIO TINOCO




Diário Popular, n.º 3, 24 de Setembro de 1942

[Não está assinado, mas figura na primeira página e tem todo o ar de ser de ALT]

O TÍTULO QUE ESCOLHEMOS

Há muito quem não tenha notado ainda que há umas tantas palavras que se escrevem tal qual se escreviam, sem mais uma letra, e que no entanto não significam, e sobretudo não significarão, o mesmo que significavam. Estão nesse caso várias palavras e entre elas a palavra povo e a palavra popular; em vários países, e entre eles a Alemanha, a palavra povo é a realidade suprema; entende-se que se pode passar a fazer parte de uma nação, graças a uma naturalização, ou que se poderá sair dela também, mas entende-se que se não pode passar a pertencer a um povo.
Consideram o povo como um aglomerado caracterizado por aspectos raciais, históricos, psicológicos; sabem-no vivo, plástico, ansioso de amanhã… e dizem que a nação é acabada, cristalizada, limitada.
Pode-se dizer que chamam povo àquilo a que outros chamam também nação… mas a verdade é que esta não será de facto viva, animada e cheia de alma se o povo não estiver bem integrado na comunidade nacional e não tiver uma esperança dentro dela.
Na comunidade nacional a camada popular representa o papel dos grandes reservatórios de energias dinâmicas e o papel das raízes, que seguram e sustentam as árvores, que resistem aos temporais da história.
Não deve por isso reservar-se à camada popular o papel físico de alicerce; a camada popular necessita de ter a sensação precisa e clara de que é uma parte integrante da comunidade nacional e de que pode ter uma esperança dentro dela. É preciso educar essa esperança, condicioná-la, encarreirá-la, mas nunca se pode esquecer que ela existe latente nas almas das multidões, que vêm através da história fazendo o que um grande filósofo chamava «a marcha lenta para o ideal heróico das amizades fraternas…».
Tornam-se infelizes as nações que esquecem essa necessidade psicológica, que parece ser uma das grandes leis reguladoras da evolução do mundo.
Perturba-se, também, e convém não o esquecer, a evolução das nações quando essa tendência se hipertrofia ou é explorada de maneira a prejudicar a constituição essencial das comunidades nacionais.
A palavra comunidade implica a ideia de interesse por outros, que não sejamos nós mesmos, e por isso é fundamental criar no povo a convicção de que faz parte de uma grande comunidade que ultrapassa os limites da camada popular.
A palavra popular na adjectivação do título deste jornal significa portanto que consideramos fundamental para «o bem na [sic] Nação» que a massa humana dos que trabalham se sinta bem integrada na comunidade nacional.
A contribuição que um jornal possa dar para substituir a ideia de estratificação social pela de comunidade de interesses e amizades recíprocas e fraternas é oportuna e justa; a palavra popular tem portanto na cabeça deste jornal uma forte razão de ser.




Diário Popular, n.º 360, 23 de Setembro de 1943

[Artigo que relata o acontecido no jantar do 1.º aniversário do jornal, donde se retiram algumas palavras do discurso do director, António Tinoco.]

O «DIÁRIO POPULAR» FESTEJOU O PRIMEIRO ANO DE TRABALHO

Por último falou António Tinoco.
Começou por dizer:
«Mais uma vez estou neste lugar, não no gozo da função mas na responsabilidade da função. Serei breve. O que tinha a dizer sobre a data que se celebra já o disse no editorial de hoje do «Diário Popular» que todos leram. Para aqui, para esta festa, ficou o aspecto íntimo, a amizade que nos une. Assim, queria abraçar todos um por um e, na impossibilidade de o fazer, abraço todos nalguns dos presentes.»
E terminou:
«Depois destes abraços dispersos, regresso à unidade, à unidade de esforços que eu represento, tarefa que entendo como um pesado fardo e um dever.»




Diário Popular, n.º 718, 22 de Setembro de 1944

[Não está assinado, mas figura na primeira página e tem todo o ar de ser de A.T.]

DOIS ANOS

Dois anos já. Dois anos de luta difícil e de trabalho intenso se completam hoje neste jornal, fundado por nós em 22 de Setembro de 1942. Assim, que ao pegar hoje na pena seja para antes de mais, num grande abraço, render justiça, prestar homenagem e agradecer a quantos tornaram possível tudo o que se chama «Diário Popular». Justiça, homenagem, agradecimento àqueles que o idealizaram, o pensaram e o realizaram, nos seus múltiplos aspectos de ideias expressas, de larga organização e enorme expansão; àqueles que sobre o jornal se debruçaram dia-a-dia, com fé, coragem e amor, erguendo-o com a sua sensibilidade e o seu trabalho na redacção e nos escritórios, ou consagrando-o com o seu suor nas oficinas; àqueles que confiram no que se considerava, há dois anos, uma aventura ruinosa no mundo dos negócios e das indústrias; a todos, sobretudo, que queimaram, hora a hora, os nervos e a saúde em alto sonho e labor esforçado, extenuante. Justiça, homenagem, também, aos homens com responsabilidades que nos entenderam, compreenderam e ajudaram. Mas a par destes homens, destes quadros, a nossa gratidão mais profunda e comovida vai para a massa popular que nos recebeu de braços abertos e se entregou – e entrega cada vez mais – num acto intuitivo e instintivo de confiança. Confiança essa que é o nosso grande prémio e, simultaneamente, uma das nossas maiores responsabilidades.

***

A camaradagem e a amizade – uma grande camaradagem e uma grande amizade na disciplina – juntas a uma aceitação geral e progressiva, eis uma das nossas forças no momento em que, ao voltar uma folha anual do calendário, nos instalamos em oficinas tipográficas próprias, e no momento em que potente rotativa própria se apetrecha para imprimir um grande jornal que se construiu a si mesmo pela vontade de alguns homens. Esse jornal é este – o «Diário Popular» – certamente uma das mais puras e mais belas criações do Jornalismo Português, uma das mais fortes realizações desta grande Profissão, tão desconhecida, desrespeitada, caluniada – mas grande, sempre.
Uma geração de servidores da Nação – da Nação imperial e da Nação social – e uma geração do Jornalismo, profissional ou não, se afirmou aqui – com as suas certezas, as suas dúvidas, os seus enganos e desenganos. E essa afirmação está de pé e ficará na lembrança.
Porque fundámos nós um «grande jornal de informação» – hoje já o «jornal da tarde de maior tiragem e expansão» – porque fundámos nós o «Diário Popular»? Que quisemos servir e que servimos – inexoravelmente – sem esmorecer? Simplesmente isto que é imenso, muito maior do que nós: a Nação, o Império e o nosso Povo.
A esta finalidade nos consagrámos, proclamando, sem cessar, que uma concepção moral da Vida a ela deve presidir e que há que afirmar a sua plenitude; que, para tanto, a Melhoria Social pela Reorganização da Economia é a batalha a travar constantemente; que o Império é a grande expressão moral portuguesa – e deve ser a grande realidade económica e a grande experiência social dos portugueses; que esta tarefa de Hércules exige homens e quadros – e que é preciso prepará-los, dar-lhes um estilo e uma organização, e comandá-los.
Criar o clima espiritual, moral e intelectual propício a uma verdadeira interpretação da Vida; enunciar os grandes princípios inspiradores e informadores; formular os conceitos exactos com a precisão possível; divulgar as fórmulas justas acessíveis às massas; levar clima, enunciado, conceitos e fórmulas a todos a quem se dirigem; desfraldar as bandeiras que tudo inscrevam no seu simbolismo; apoiar os comandantes e os soldados de ideal – eis a tarefa, a grande tarefa, de hoje e de amanhã.
Hoje e amanhã… Joga-se neles o destino do Mundo de que Portugal é parte integrante e parte essencial para nós portugueses. Prepara-se do alto do Poder ou em qualquer posição o futuro da Pátria – da Comunidade em que os nossos filhos hão-de viver, e onde sonhamos que vivam no amor do que amamos, certamente a continuar-nos e a continuar Portugal. Assim, nesta hora, nada vale mais do que este admirável conjunto, esta extraordinária unidade que tem por centro Lisboa, e se expande até Macau e Timor, encontrando os Açores já aqui ao pé da Metrópole, para se apaixonar por Angola, se debruçar sobre Moçambique, chegar à Índia Portuguesa, depois de ter tocado na Guiné, em S. Tomé e Príncipe e Cabo Verde. Serena realidade mundial a portuguesa, aberta a todas as possibilidades humanas.

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O «Diário Popular» nasceu e cresceu com homens atentos a tudo o que dilacera o Mundo ainda em Guerra, mas já a caminho da Paz – homens convictos de uma ética moral de vida colectiva, de vida da nossa Comunidade; servidores fiéis do sentimento e das aspirações populares; fiéis servidores da verdade social da Pátria e da realidade, igualmente verdadeira, do Império.
Esta a nossa maior força.