Prefácio

Vou contar-vos esta história como se a contasse a mim mesmo. Sei dela tanto quanto vós saberão, depois de a lerem. Apenas isso. Não mais. Esta é uma história incompleta, aquilo que aqui vos deixo é exactamente aquilo que eu consegui apurar. Vou contá-la como se a contasse à minha filha mais nova, à noite, ao deitar; umas vezes a partir deste texto, outras a partir da experiência própria, outras “de boca”. Mas, asseguro-vos, será sempre uma história incompleta. Mesmo que este texto tenha reedições futuras, com emendas, acrescentos e rectificações, não deixará nunca de relatar uma história incompleta. Porque embora sendo uma história pessoal (da pessoa retratada, como de mim próprio…) não deixa, por isso, de estar recheada de buracos, de interrogações, de ausências.

Ponto de partida: António Carlos Lepierre Tinoco. Meu avô. Pai da minha mãe. Não a perfilhou. Não a conheceu. Seguiu por um caminho, ela por outro. E eu (seguindo o dela, naturalmente), enquanto os caminhos se afastavam, se aproximavam e se desenrolavam, não o conheci a ele. É assim mesmo. Muitas vezes, as vidas de uns e de outros separam-se num ponto e reencontram-se, mais tarde, num outro ponto. Este website parece-me ser o tal ponto de união, onde a minha vida e a vida do meu avô materno se reúnem. Foi já tarde (alguma vez é tarde?) que tal impulso despertou. Quase, quase, ao chegar aos quarentas.

Nestes quase quarenta anos, cresci, vivi e estive sempre de bem com a ideia de que o meu avô materno tinha sido Charles Lepierre. Sabem? O das águas. O do liceu francês, em Lisboa. Era óbvio que tal não era cronologicamente possível, mas o meu desinteresse “natural” pelas questões familiares nunca colocou em dúvida tal asserção. Era ele o meu avô materno. Estava bem assim. Se questionado por alguém, talvez me saísse com uma tirada do género «Bom, talvez não fosse avô, sim, isso, era antes meu bisavô, pai do meu avô. Claro, desculpem, erro meu». E continuava assim o erro...

O que o tempo trouxe, e a bom tempo o fez, foi o esclarecimento cabal da ascendência materna. Vejamos, pois, a origem da coisa e o lugar adequado de cada um dos membros da árvore genealógica . Eu, filho de Maria Lisete Oliveira Soares, neto de António Carlos Lepierre Tinoco, bisneto de António Madeira Tinoco, trisneto de António Pinto Toscano Tinoco… e de Charles Lepierre, pai de Madeleine Anna Virginie Lepierre, mãe de António Carlos Lepierre Tinoco, pai de Maria Lisete Oliveira Soares, minha mãe…

Estava finalmente percorrida a correcta volta temporal e desfeito o nó do parentesco. Charles Lepierre é, afinal, meu trisavô. Mas permanecia a questão. Quem é, então, o avô? «O avô», conta-me a minha mãe pela enésima vez, «foi António Lepierre Tinoco». «Ah, ok, pois é, já mo tinhas dito. Exacto, o tal que não te perfilhou…» E tudo ficaria novamente por aqui… Mas há um dia em que mesmo um desinteresse “natural” pelas questões familiares não resiste a uma curiosidade um pouco mais forte, menos habitual. E nova pergunta se impõe – «Mas o que é que ele fazia mesmo?». «Esteve ligado aos fascistas, andava metido com o Rolão Preto, foi director do Diário Popular e pagava aos empregados d’A Brasileira para o tratarem por Doutor…» «Espera, como é que é?» «Mais ou menos isso.»

Claro que a coisa desta vez não poderia ficar por aqui. O meu avô, fascista?! Camisa Azul?!




Nos 6 capítulos que se seguem tentarei, na medida do possível, traçar a melhor e mais completa imagem de António Lepierre Tinoco. Espero sinceramente que vos agrade a leitura, tanto quanto me agradou a mim edificar esta memória.